como o excesso de telas pode esconder sintomas de tdah

Problemas de concentração e dificuldade em avaliar o desempenho escolar têm se tornado cada vez mais usuais entre crianças e adolescentes. E isso nos leva a pensar no impacto que o uso excessivo de telas pode ter, especialmente em comportamentos que lembram o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH).
O neurocientista Fabiano de Abreu Agrela Rodrigues chama atenção para a confusão que pode ocorrer entre os sintomas gerados pela hiperestimulação digital e os transtornos neuropsiquiátricos reais. Ele explica que, durante a infância e adolescência, o cérebro ainda está em desenvolvimento. Quando a exposição a vídeos curtos e recompensas instantâneas se torna constante, isso pode fragmentar a atenção e afetar a metacognição — a habilidade de pensar sobre o próprio pensamento e estratégias de aprendizado.
### Cérebro condicionado ao estímulo rápido
Fabiano enfatiza que os algoritmos digitais trabalham criando padrões de recompensa, algo similar ao que acontece em comportamentos compulsivos. Essa sequência rápida de estímulos ativa circuitos do sistema de recompensa do cérebro, impactando a atenção e a capacidade de autorreflexão.
Quem já sentiu a pressão de um dia cheio de estímulos, como o trânsito nas grandes cidades, pode entender: quando a atenção diminui, fica mais difícil se concentrar em tarefas simples, como revisar o que foi aprendido em aula. Após provas, muitos estudantes não conseguem nem perceber se se saíram bem ou mal. Isso reflete um enfraquecimento da memória de trabalho, que é essencial para processar experiências de maneira consciente.
### Nem todo déficit de atenção é TDAH
O TDAH envolve critérios clínicos específicos e é influenciado geneticamente. Mas Fabiano levanta um alerta: nem toda distração tem a ver com esse transtorno. Muitas vezes, os jovens estão apenas sobrecarregados por uma estimulação excessiva e pela falta de momentos de silêncio. Afinal, quantas vezes você já viu crianças ou adolescentes tão imersos em seus celulares que não parecem notar o que acontece ao seu redor?
### Desaparecimento do “tédio saudável”
Outro ponto importante é que o “tédio saudável” está em extinção. Esse estado, tão fundamental para a criatividade e a introspecção, vem sendo eliminado, já que qualquer momento de espera é preenchido pela tela do celular. Fabiano comenta que essa ausência de silêncio interno reduz a capacidade de fortalecer conexões neurais que são essenciais para a criatividade e a reflexão.
### Desintoxicação digital como estratégia preventiva
A solução pode começar em casa. Reduzir o tempo de tela, incentivar atividades fora do digital, como ler um livro, praticar esportes ou ter um bom papo cara a cara são boas maneiras de ajudar no desenvolvimento saudável. O que realmente importa é a forma como lidamos com a tecnologia. Ela pode ser uma grande aliada, mas, quando usada de forma excessiva, é capaz de sequestrar nossa capacidade de atenção e fazer com que o cérebro fique sempre dependente de estímulos constantes.
Quem sabe, ao refletirmos sobre esses pontos, possamos encontrar um equilíbrio saudável entre o mundo digital e a nossa vida offline.



