Notícias

Crise na engenharia no Brasil: jovens se afastam da profissão

O interesse dos jovens brasileiros pela Engenharia tem diminuído, e isso já está afetando a oferta de profissionais na área. Uma pesquisa feita com 1.150 alunos do ensino médio apontou que apenas 12% deles pretendem seguir essa carreira. É curioso, considerando que engenheiros desempenham papéis fundamentais em setores como infraestrutura, energia, tecnologia e indústria.

Esse levantamento foi encomendado pelo Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) e realizado entre junho e julho deste ano, com uma margem de erro de 2,9 pontos percentuais. Para agravar a situação, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que o país enfrenta um déficit de 75 mil engenheiros.

Queda no ingresso em cursos de Engenharia

A diminuição do interesse pela Engenharia não é nova. Entre 2014 e 2023, o Brasil viu uma redução de 23% no número de calouros nos cursos da área, segundo dados do Ministério da Educação (MEC). Essa queda afeta a reposição da mão de obra em setores que precisam de habilidades técnicas específicas.

Na prática, as empresas relatam dificuldades para preencher vagas, o que atrasa projetos e aumenta os custos de contratação. A preocupação é real, já que a escassez de profissionais pode comprometer o desenvolvimento das áreas estratégicas da economia.

Motivos que afastam estudantes da Engenharia

Um dos fatores que mais pesa na decisão dos jovens é o preço dos cursos, considerado "muito caro" por 82% dos entrevistados. Além disso, muitos jovens têm optado por áreas de Ciências Humanas. Metade dos participantes da pesquisa disse preferir disciplinas como Artes, História, Sociologia, Geografia e Filosofia.

A base escolar também é um aspecto relevante. Para 79% dos alunos, as falhas na educação básica desmotivam a escolha ou a continuidade do curso superior, especialmente nas matérias que exigem Matemática. Dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) mostram um desempenho abaixo do esperado nas Matemáticas em todo o Brasil.

É alarmante notar que, aos 10 anos, apenas 37% das crianças conseguem realizar operações simples. Aos 14, essa porcentagem cai para 15% quando se fala em resolver uma equação de 1º grau. Com essa base, a transição para disciplinas mais avançadas na universidade se torna um desafio.

Outros destaques da pesquisa

As preferências dos jovens em relação aos cursos superiores mostram que as Ciências Exatas estão perdendo terreno para as Humanas. Quase 49% dos entrevistados preferem cursar disciplinas de Humanas, enquanto apenas 28% se interessam pelas áreas de Exatas. Além disso, a insegurança em relação à Matemática também é um fator significativo, com uma média de apenas 5,2 em 10 de segurança na disciplina.

Entre os principais obstáculos para a escolha de Engenharia, 22% citam dificuldades com Matemática. Outros 80% consideram os cursos caros e 23% reconhecem as dificuldades financeiras como um motivo para desistir.

Áreas mais procuradas dentro da Engenharia

Entre os jovens que se identificam com áreas de Exatas, há interesse por Gestão e Negócios, além de cursos ligados à tecnologia, como Ciência da Informação e TI. Dentro da Engenharia, as áreas de Civil, Computação, Elétrica e Mecânica são as mais populares.

Os motivos para escolher esses cursos incluem identificação com a área, oportunidades de estágio e a promessa de uma remuneração mais atraente. No entanto, fatores como carga horária intensa e a impressão de que os cursos são mais teóricos do que práticos levam muitos a reconsiderar a escolha.

Crise de percepção e perda de prestígio

A imagem pública da profissão de engenheiro também está em jogo. Dário Gramorelli, da Associação dos Engenheiros Politécnicos, alerta que houve uma perda de valor e prestígio da profissão, refletida até em piadas de comediantes. Ambientes acadêmicos que oferecem excessiva teoria e pouca prática afastam candidatos em potencial.

Embora haja avanços, melhorar a conexão dos currículos com problemas reais e incluir experiências práticas desde cedo poderia atrair mais jovens para a Engenharia.

Expansão do ensino a distância

A crescente oferta de cursos de Engenharia a distância gera preocupação entre os profissionais. Se o EAD não for acompanhado de uma infraestrutura adequada e avaliação rigorosa das competências práticas, isso poderá piorar a formação dos novos engenheiros.

Os educadores defendem a importância de manter padrões de qualidade, especialmente nas disciplinas que requerem experimentos e práticas laboratoriais.

Gargalo estrutural na matemática

As dificuldades com Matemática surgem como um fator central nesse cenário. Mais de um terço dos jovens se sentem inseguros com conteúdos matemáticos, o que impacta diretamente suas escolhas de carreira na Engenharia. Avaliações como as do Saeb revelam que a falta de aprendizado adequado se inicia precocemente e se arrasta pelo tempo escolar.

Sem um domínio básico, o caminho para as disciplinas mais avançadas se torna uma barreira difícil de superar, resultando em evasão nas universidades.

Impacto no mercado e políticas de formação

Enquanto as empresas clamam por engenheiros, a oferta estagnada de profissionais tem um impacto direto nas condições do mercado. Salários pressionados e a busca por talentos em áreas como energia renovável e mobilidade urbana tornam a situação ainda mais crítica.

Instituições sugerem soluções como programas de nivelamento em Matemática e parcerias para estágios, visando melhorar a conexão entre escolas, universidades e o setor produtivo, ajudando a moldar profissionais capacitados e alinhados às necessidades do mercado.

Engenharia perde espaço para cursos de TI

Embora Engenharia ainda esteja associada a boas oportunidades de emprego, muitos jovens estão migrando para cursos de TI, que oferecem um caminho mais curto e acessível. Sem uma comunicação clara sobre as chances reais na Engenharia, essa área perde espaço na disputa por atenção.

E agora?

Os dados indicam uma crise silenciosa na Engenharia: a redução do número de candidatos, uma base matemática inconsistente, altos custos e incertezas sobre a formação. As empresas estão enfrentando a escassez de profissionais, e a solução pode estar em melhorar a educação em Matemática, alinhar os currículos às necessidades práticas do mercado e oferecer mais apoio financeiro para facilitar o acesso à formação.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo