Um novo levantamento realizado com 2.338 médicos que trabalham em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) no Brasil evidenciou uma diferença alarmante na qualidade do atendimento entre os serviços privados e públicos. Este estudo, denominado Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica nas UTIs Brasileiras, foi conduzido pela Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) em colaboração com o Conselho Federal de Medicina (CFM).
Desigualdade nas Avaliações
Os resultados da pesquisa demonstraram que as UTIs privadas receberam notas consideravelmente mais altas em relação às públicas. Apenas 22,7% dos médicos avaliaram a disponibilidade de medicamentos essenciais nas UTIs do Sistema Único de Saúde (SUS) como adequada, enquanto esse percentual sobe para 57,7% nas instituições privadas e afiliadas a planos de saúde. A discrepância na avaliação da suficiência de leitos é igualmente preocupante: apenas 24,1% dos médicos atribuiram a nota máxima às UTIs públicas, enquanto 51,4% fizeram o mesmo nas unidades privadas.
Este levantamento salienta a urgência de melhorias não só na infraestrutura, mas também na composição das equipes multiprofissionais nas UTIs. Apenas 39,2% dos médicos avaliaram positivamente a presença de equipes especializadas no setor privado, em comparação a 23% no setor público. No que diz respeito à disponibilidade de leitos no SUS, as avaliações negativas atingem 32,6%, contraste com a taxa de apenas 7,7% nas unidades particulares.
Chamado à Ação
A Amib enfatizou a necessidade premente de políticas públicas que vão além do aumento do número de leitos, focando na estruturação das UTIs em diferentes aspectos, incluindo recursos humanos e protocolos de atendimento. O diagnóstico gerado pelo inquérito tem como objetivo influenciar tanto gestores do setor público quanto privado e autoridades responsáveis pela fiscalização dos serviços de saúde. A organização estima que as mudanças propostas podem afetar diretamente 43.901 leitos de UTI no país, sendo 34.927 destinados a adultos e 8.974 a pediatria e neonatologia.
Além disso, a pesquisa revelou desigualdade na presença de enfermeiros com formação específica em terapia intensiva: 25,1% dos entrevistados do setor privado avaliaram essa questão positivamente, enquanto apenas 16,9% do setor público fizeram o mesmo. Dados adicionais mostram que 37,2% dos médicos do SUS consideram a presença desses profissionais inadequada, contra 26,4% no setor privado.
Os achados da pesquisa retratam uma situação preocupante sobre a qualidade do cuidado nas UTIs brasileiras, evidenciando que, apesar de um sistema robusto em termos de leitos, a eficiência e a qualidade do atendimento demandam significativas melhorias. A maioria dos médicos entrevistados assinalou a necessidade urgente de mudanças estruturais nas UTIs a fim de proporcionar um atendimento mais humanizado e efetivo para pacientes em estado crítico.
