Anualmente, em 11 de setembro, celebra-se o Dia Nacional do Cerrado, uma data que destaca a importância desse bioma, especialmente através da obra de João Guimarães Rosa. A bióloga Mônica Meyer, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), menciona a ligação entre a literatura do autor e a conservação ambiental, alertando sobre as ameaças que o Cerrado enfrenta, particularmente devido à expansão do agronegócio.
No ano de 1952, Guimarães Rosa já era um escritor consagrado quando participou de uma expedição de boiadeiros que percorreu 240 quilômetros do Cerrado mineiro. Durante essa jornada, ele registrou a transformação do ambiente em cadernetas, observando não apenas a natureza, mas também as siderúrgicas e o cultivo de eucalipto que iniciavam a degradação da área. Essas anotações se tornaram essenciais para suas obras, inspirando clássicos como Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, ambos publicados em 1956, que completarão 70 anos em 2026.
A Relação entre Humanidade e Natureza
Para Mônica Meyer, o Cerrado não é apenas um pano de fundo nas histórias de Rosa, mas sim um personagem central. “Isso evidencia que os seres humanos não estão separados da natureza; esta está intrinsecamente ligada à existência de cada um de nós”, ressalta a pesquisadora. As percepções de Rosa em 1952 foram imortalizadas em suas narrativas, que retratam a flora e fauna, a dinâmica dos ribeirões e a interação dos humanos com o ambiente.
Uma das qualidades mais impressionantes de Grande Sertão: Veredas é a forma como o autor retrata o meio ambiente. Mônica descreve como “um romance aquático”, referindo-se ao modo como Rosa explora o rio e a seca típica do Cerrado, enfatizando a interdependência entre a natureza e seus personagens. Com maestria, o autor descreve as estações, alternando entre a época de chuvas, que sustenta a vida, e a seca, que exige resiliência.
Uma Defensora Silenciosa do Meio Ambiente
Mônica sublinha que Grande Sertão: Veredas vai além de ser uma obra literária de referência; ela também luta pela preservação da natureza. Embora não haja discursos diretos em defesa do meio ambiente, os textos de Rosa provocam a reflexão e o respeito pelo bioma. Um exemplo claro é a relação entre Diadorim e Riobaldo, onde a fauna e a flora são admiradas sob uma nova perspectiva.
Com descrições vívidas e marcantes, o romance convida leitores a enxergar o Cerrado como um organismo vivo, e não apenas como um espaço a ser explorado. “Guimarães Rosa nos inspira a olhar a natureza de uma forma distinta”, afirma Mônica. Para ela, a obra do autor representa um vasto recurso para debater sobre educação ambiental, funcionando como uma verdadeira enciclopédia do Cerrado, que evidencia a transformação contínua que envolve todos os seres vivos.
As reflexões de Guimarães Rosa transformam o Dia Nacional do Cerrado em um momento não apenas de celebração, mas também em um apelo pela conscientização ecológica e valorização deste bioma vital para o Brasil.
