Um levantamento recente, realizado pelo Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), revelou que cortes ou estagnação nos valores dos benefícios sociais, como aposentadorias e o Bolsa Família, podem resultar em uma grave retração econômica nas cidades do interior do Brasil. O estudo, que foi divulgado nesta semana, enfatiza a importância desses auxílios para a sustentabilidade financeira e a atividade comercial local.
Os resultados indicam que, em algumas dessas localidades, os benefícios sociais e previdenciários podem representar até 50% da renda das famílias mais carentes. Conforme Luiza Nassif, co-diretora do Made-USP, a maior parte dos recursos recebidos por essas famílias é utilizada para adquirir bens de primeira necessidade, o que, por sua vez, beneficia diretamente o comércio e assegura empregos ao redor. A pesquisa mostrou que, entre os 5.569 municípios brasileiros, aproximadamente 4 mil estão situados fora das regiões metropolitanas, onde o impacto das transferências públicas é consideravelmente maior do que nos centros urbanos.
Impactos Econômicos Futuro
Com base na análise dos dados de 2022 a 2025, o estudo projetou que, sem reajustes, a renda no interior do Brasil poderia sofrer uma queda de 6,8% a 10,8% em comparação ao que seria observado caso os benefícios sociais mantivessem uma valorização real. A estagnação na política dos auxílios impactaria também as famílias que não contam diretamente com esse suporte financeiro, refletindo um efeito cascata.
Cenários mais afetados foram identificados em estados como Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, onde a renda total poderia experimentar uma redução entre 17% e 18% sem os ajustes nos benefícios. Conforme outros dados, estados como Amazonas, Sergipe e Pernambuco teriam perdas próximas a 15%. Já no Ceará, Maranhão, Alagoas e Bahia, a queda na renda poderia ficar entre 10% e 13%. Em Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Espírito Santo e outras regiões, os prejuízos chegariam a 6,5%.
Consequências Sociais da Queda nos Benefícios
O estudo também sublinhou a relevância dos auxílios sociais no combate à pobreza no Brasil. Nassif alerta que qualquer ajuste que fique abaixo da inflação pode empurrar famílias que já estão na linha limite da pobreza. Para aquelas que possuem uma renda de até 1,5 salário mínimo per capita, os benefícios sociais podem corresponder a até 50% da renda total.
As simulações realizadas indicam que a falta de valorização real dos benefícios entre 2022 e 2025 poderia empurrar aproximadamente 2,7 milhões de pessoas para a pobreza, com 2,4 milhões caindo na extrema pobreza, especialmente nos municípios fora das regiões metropolitanas. Estima-se que os estados da Bahia, São Paulo e Minas Gerais serão os mais afetados, com aumentos de 336 mil, 263 mil e 251 mil pessoas, respectivamente, no contexto da pobreza.
Esses dados evidenciam a necessidade de manter a valorização real dos programas de transferência de renda, aposentadorias e do BPC, não apenas para garantir a dignidade das famílias, mas também para assegurar a viabilidade dos comércios e economias locais no interior do Brasil.
